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RU – Conte-nos como a banda foi formada.
Marco Di Martino –
Em janeiro de 1985, fui convidado pra remontar uma banda chamada Pesadelo. Disse que toparia, desde que o nome fosse outro. Inicialmente éramos um power-trio, buscando membros para completar a banda. O guitarrista (Miguel - que posteriormente integrou a banda Atraque) teve a idéia do nome e o batera (Alexandre Barea - que mais tarde integraria a banda Cascaveletes) achou muito interessante e sugeriu. Topei. O power trio durou três meses. O pessoal decidiu que o negócio deles era mesmo o Thrash Metal da Pesadelo. Spartacus existiria para ser uma banda de Heavy Tradicional. Fui procurado pelo guitarrista Ricardo "Malcolm" Aronne depois disso que se entusiasmou com o projeto e queria colocar Spartacus em prática. Rolamos um som com uma dupla - o guitarrista César Proença e o baterista Ronaldo Gonçalves - que estava insistindo para que tocássemos juntos. Confesso que não levava fé em ninguém ali. Estava enganado. Logo que começamos a rolar Battle Hymn do Manowar, percebi que a coisa funcionava. Só faltava o vocal - Marco Canto - que chegaria pouco antes da gravação da coletânea que nos lançou: Rock Garagem II.

RU – Por que o nome Spartacus?
Marco Di Martino –
Simboliza ideal, resistência, luta, movimento, poder e aço. Precisa mais?

RU – Por que a escolha de cantar Heavy Metal em português?
Marco Di Martino –
Porque vivemos no Brasil e fazemos música de maneira natural. Nós vivemos praticamente o ano inteiro falando, interagindo e sentindo em português. Todo mundo em volta da gente também vive a mesma situação e não se comunica em outra língua que não seja o português, salvo em raras exceções (né teacher? Né hermanos?). Em que língua deveríamos cantar? Naquela que as gravadoras brasileiras de Metal querem? Por que estão acostumadas a vender assim? Não, obrigado. Estamos nessa pelo Rock’ Roll (we die hard). Também cantamos em português porque queremos que as pessoas tenham um entendimento emocional das letras, não meramente decoreba. Nos anos 80, por “n” fatores, desistiu-se do próprio idioma (acredito que basicamente por incompetência, ingenuidade e marketing) e passou-se a cantar em inglês. Assim, uma parte fundamental do recheio do bolo - o conteúdo emocional e de comunicação das letras - foi jogada no lixo. Nunca aceitamos isso.

RU – Vocês já tentaram, fizeram, ou pretendem fazer algo em inglês no futuro?
Marco Di Martino –
Temos alguma coisa em inglês para o caso de algum lançamento em países onde o inglês seja língua popular. Mas isso seria depois de muita coisa...

RU – Como chegaram a assinar contrato com a UGK Discos?
Marco Di Martino –
Nós já havíamos trabalhado com a UGK quando entramos na coletânea Rock Soldiers Vol 6. O Marivan, articulador, sempre mostrou muito entusiasmo pelo projeto do Libertae e queria muito fazer a produção executiva do disco. Assim, a UGK Discos foi a produtora executiva do Libertae, ou seja, pagamos pra que a UGK encomendasse o disco e providenciasse a confecção da maneira que queríamos. Esse foi o contrato.

RU – Na verdade, a banda se situa entre o Rock Pesado, o Hard Rock e o Heavy Metal. Como a banda se define?
Marco Di Martino –
A pedra fundamental sobre a qual a Spartacus se desenvolveu foi a NWOBHM que compartilhava tendências Hard e Heavy. Acho que no nosso caso seria um Heavy Metal Tradicional com um temperinho Hard que às vezes é maior outras vezes é menor. Não tem como não ser rock pesado... Nosso objetivo é continuar levando essa linha desenvolvendo evoluções, pra não ficarmos datados.

RU – Vocês devem ter influências bem ecléticas para tamanha diversidade. Fale sobre elas.
Marco Di Martino –
Estilos clássicos do rock dos anos 70 e 80... Hard Rock, Heavy Metal, Rock Progressivo... Também se escuta o que veio depois na linha do Heavy Metal. Trabalhos como o do Stratovarius e Bruce Dickinson também contribuem para nossa síntese musical. Fora isso nossas histórias pessoais também temperam tudo... Eu e o nosso guitarrista, por exemplo, curtimos Lynyrd Skynyrd, nosso vocal curte muito Gênesis e o nosso batera também tem as peculiaridades musicais dele...

RU – Fale sobre Libertae.
Marco Di Martino – O nome do disco foi idéia do nosso então guitarrista Victor Petroscki. Libertae significa da liberdade, da mesma forma que curriculum vitae significa currículo da vida. Spartacus é o nome de um escravo que tornou-se gladiador no antigo império romano e que não se conformou com sua situação de falta de dignidade, indo às últimas conseqüências na busca de liberdade. A proposta de Spartacus, como banda, também tem como meta a liberdade, sendo artisticamente livre de pressões de mercado, gravadoras e etc. Esse conjunto de fatores deu propriedade para o disco chamar-se Libertae. Não se trata de um álbum conceitual, mas tem a ver com nossa proposta. Para produzi-lo, partimos do seguinte: ouvimos o primeiro disco que a Hangar havia feito e achamos que aqui, em Porto Alegre, não poderíamos encontrar algo mais apropriado para o que queríamos fazer. Demos uma conferida no estúdio e nos métodos que eles utilizaram (o Aquiles convidou o MCanto pra ir lá e eu e o Victor fomos junto). Só que as coisas conosco saíram diferentes e fizemos uma mescla de métodos pra que a coisa saísse mais ao nosso gosto. Gravamos e mixamos analogicamente 90% do disco (só o último tema do CD que foi pelo processo digital). Depois, passamos as 24 pistas gravadas em rolo para dentro do computador. Abríamos os arquivos com as músicas mixadas no modo analógico e introduzíamos de novo as pistas que queríamos realçar, sincando pra que ficassem no lugar certo da música. Masterizamos, voltamos para realçar, e remasterizamos. Esse processo de realce era feito pelo nosso então baterista, Erick Lisboa. Depois de montarmos a capa, fomos de um lado a outro checando possibilidades de produção executiva do disco. Chegamos a começar um processo de produção executiva aqui em Porto Alegre, mas abortamos em função dos crescentes riscos que se apresentavam de que o trabalho não saísse como esperávamos. Terminamos fechando com a UGK Disccos de Pelotas/RS.

RU – Fale sobre os trabalhos lançados até então.
Marco Di Martino –
A coletânea Rock Garagem II fez parte do boom do rock gaúcho aqui pelo sul. Foi o que fez a gente existir na cena musical e na mídia logo no começo de nossos trabalhos. Somos a banda que faz o encerramento do disco. Apesar das divergências com os organizadores na época (nossa sonoridade ficou muito Hard e limpa demais) fomos muito gratos pela oportunidade. A reação de público e mídia foi boa, pena que, por n questões, o Rock Garagem II não teve os mesmos benefícios do primeiro Rock Garagem e o disco ficou sem show de lançamento. O público acabou ficando sem a banda nos palcos e teve que esperar muito até conseguirmos aparecer de forma apropriada e condizente com nossos critérios. O relançamento do Rock Garagem II em CD em 1999 coincidiu com um período de rearticulação da banda e ajudou a promover, na mídia, o nosso retorno que seria logo em 2000. A coletânea Rock Soldiers Vol. 6, da UGK Discos (2001), trouxe Spartacus como banda de abertura. Foi um lançamento independente dedicado a um segmento de mercado que trouxe nossa sonoridade atual para as lojas especializadas em Heavy Metal. O Good Music Rock Festival, 1ª edição, selecionou, por critérios de qualidade, 10 entre 270 bandas de vários segmentos do rock e nós fomos uma das 10 bandas selecionadas que integraram a coletânea resultante do festival. Os CDs foram disponibilizados às bandas para sua veiculação em 2002 e podiam ser adquiridos na loja que promoveu o evento, a própria Good Music, em Porto Alegre. Essas coletâneas contribuíram, com maior ou menor intensidade, para que nosso nome circulasse no meio musical. Quem não é visto não é lembrado.

RU – O final é seu!
Marco Di Martino –
Heavy Metal não é moda. Não é passageiro. É Rock'n' Roll na quintessência tocado de uma maneira que a gente não pode abrir mão. Se não dá dinheiro, foda-se! Não é por isso que a gente toca em banda de Heavy Rock. Se for, caiam fora! Se a gravadora não quiser, azar é dela! Se não dá pra conseguir grana tocando, trabalharemos em outra coisa pra botar a coisa de pé. Rock é sagrado, principalmente se for de aço. A gente não profana, cultua. Rock no underground vem sendo a possibilidade de veicularmos as coisas. Rock Underground é a possibilidade de mandarmos um abraço a todos vocês! Obrigado revista, obrigado leitores! Long Live Rock'n' Roll!  Metal for all!